Depois já estava no carro, do lado do meu pai, com o sorriso na orelha, apertando as mãos e torcendo para que eu nem visse o tempo que seria meu pai deixar a Sara na escola e estacionar o carro na frente da rodoviária. Eu passei a noite toda revoltada com a ideia de meus avós não gostarem de avião. Isso só fez a espera ser mais longa e eu detesto esperar.
/descobriquecomertostinesenquantoescrevomeinspira
Desci do carro e saí correndo pela rodoviária, parecendo uma barata tonta... Rodei por tudo até que um rapaz muito do educado resolveu me socorrer e andou comigo procurando pelo ônibus. A única informação que eu tinha era de que eles chegariam as oito horas. Já era oito e meia e nem sinal de vida. Cada ônibus que eu via descer da ponte era uma pontada de felicidade.
Quando faltava cinco minutos pra nove horas eu comecei a surtar e perguntar que horas o ônibus chegaria, porque estava demorando tanto, e um rapaz me apontou o ônibus e disse:
- É aquele ônibus ali... Estão chegando agora.
Eu corri pra plataforma e fiquei com os olhinhos vivos na porta do ônibus... Quando o motorista desceu eu pedi gentilmente que ele entrasse e ajudasse um casal de idosos, de cabelinhos brancos e de óculos a descer do ônibus pois eles teriam dificuldade. O motorista entrou e voltou segundos depois me dizendo que não tinha nenhum casal de idoso ali dentro.
Eu me apavorei, mandei ele procurar de baixo do banco, comecei a chorar e... O motorista me carregou pra fora da plataforma e como uma linda ironia do destino, eu trombei no meu avô.
A verdade é que ele estava ali desde as sete da manhã, não encontrou o nosso número e ele mal enxerga as teclas do orelhão porque são prateadas com relevo. Ele estava sentado, tomando um café com a vó, e eu pude sentir o cheiro do meu pai se aproximando de mim com a vó enquanto eu pulava no pescoço do meu avô.
Acho que ouvi ele murmurar algo do tipo "você vai me esmagar, menina" ou "nós vamos cair"; mas eu pouco me importei. Uma vez, quando pulei no pescoço do meu primeiro namorado depois de três meses sem se ver, eu me preocupei se estaria pesado pra ele me segurar por tanto tempo no ar; mas com meu avô, não. Estava tão bom ali, no colo dele. Eu estava chorando, desesperada só em pensar que podia ter acontecido alguma coisa, e ele me acalmou.
Depois, a vó, rindo da minha maluquice, me abraçou e respirou o cheiro dos meus cabelos e disse "continua com o mesmo cheirinho nos cabelos...". Eu penso que essa minha mania de cheiros eu herdei dela.
Eu vim atrás com a vó, segurando a mão dela enquanto ela afagava meus cabelos, e o vô contando detalhes da viagem, que quase não conseguiu dormir e que o ônibus balançava demais.
Chegamos em casa, ajudei eles a desfazer as malas, ganhei presentes, comi os chocolates que sobraram da viagem, ri, contei piadas e mostrei meus vestidos novos. Também mostrei as fotos da parede do meu quarto, cantei uma música que compus esses dias e deitei no colo da vó enquanto ela falava sobre os últimos acontecimentos.
A vó se encantou tanto com os meus vestidos que decidiu ir fazer compras no shopping comigo assim que chegou.
Eu fiquei um pouco assustada mas ela está tão animada com a cidade e com estar aqui conosco que não resistiu, pegou o cartão do vô e fugiu comigo.
Experimentamos quinze vestidos pra levar um. Ela disse que até o final da semana vamos lá comprar mais alguns...
Depois, ela me olhou com aquela cara de pidona e disse "quer yakissoba?"
Estava quase na hora do almoço e a mãe estava esperando pela gente, mas eu não resisti. Pedimos um pratão de yakissoba, eu pedi uma água com gás e ela uma água natural. Comi conversando com ela, contando as novidades, olhando os rapazes que passavam. Ela apontou uns cinco rapazes e eu não gostei de nenhum. Fazia careta pra todos que ela apontava.
A gente riu. Depois fomos numa loja de lingerie e eu descobri que minha mãe é super parecida com a minha vó, principalmente quando fala bobagens.
Me diverti como não me divertia há muito tempo.
Olhamos a beira-mar sentadas naquela BRUNELA, comendo bombom de nozes e ouvindo a música ao vivo.
Foi lindo ver ela toda encantada com aquele mar, com os pássaros e com o céu azul. Fui capaz de sentir a respiração funda dela e vi quando ela fechou os olhos e deixou aquele momento se petrificar e tornar-se eterno.
Foi lindo ouvir ela dizer que estava feliz, que se sentia completa porque viveu uma vida repleta de amor, e que vai morrer feliz, feliz como alguém que amou mais do que podia.
Ela falou aquilo com tanta verdade que doeu aqui dentro. Mas não uma dor como qualquer outra que eu tenha sentido, mas aquela dor que dá quando estamos muito felizes.
Almoçamos e a vó pegou no sono.
O vô, como quando eu tinha cinco anos, bateu no colo e sorriu pra mim. Eu não pensei duas vezes e pulei no sofá onde ele estava e deitei no colo dele. Me senti estranha por não caber mais nos braços dele, agora só minha cabeça e parte do meu tronco estava no colo dele e o resto do corpo jogado no sofá, mas mesmo assim foi bom. E não demorou muito para as lágrimas começarem a cair.
Ele ficou quieto, sabendo que eu precisava daquilo mais do que qualquer outra coisa. Que aquelas lágrimas estavam presas ali há tempos, e que gritavam pedindo pra sair.
E ele começou a cantarolar aquela música "eu sei e você sabe, já que a vida quis assim, que nada nesse mundo levará você de mim; eu sei e você sabe que a distância não existe, que todo grande amor só é bem grande se for triste; por isso, meu amor não tenha medo de sofrer, pois todos os caminhos me encaminham pra você...".
E, depois de uns minutos, ele tirou meu cabelo do rosto e desembestou a falar:
"eu sei que a vontade de amar ainda pulsa aí dentro, mesmo que você negue; e que o medo de amar parece palpitar mais forte que a esperança de dias melhores; mas eu quero que você entenda que esses sinais são pra te mostrar que você tem um coração sonhador batendo aí dentro, e que essas lágrimas aqui são lágrimas de quem ama, independente de quem seja. mas ama. o cheiro de erva com madeira, o coração palpitante e os lindos pores-do-sol cor-de-rosa não querem dizer que a sua pessoa certa está ao seu lado, mas são sinais de que a vida sorri pra você como sempre sorriu..."
E ele me levantou e me fez olhar o dia lindo que estava indo embora. Depois, segurou as minhas mãos e, pela primeira vez, eu não me importei com as lágrimas que caíam:
"essas mãos que seguram a sua, um dia, andaram muito ansiosas em amar novamente. elas tinham segurado mãos que não a amavam... aí, um dia, eu encontrei os olhos italianos da sua avó e amei, amei como nunca antes. você não precisa sentir o cheiro pra saber que vai amar de novo, é só olhar nos olhos e não precisa de muito tempo, segundos depois seu coração já está aceso, aquecendo a vida que esteve escondida em você enquanto você fugia..."
E eu abracei ele, como quando eu o abraçava quando criança, depois de uma tarde no jardim cuidando das margaridas, e começava a chover e ele me pegava no colo, pra que eu escondesse o rosto no ombro dele e não ficasse doente.
Eu me senti protegida, de novo.
Me senti a Mayara que esteve perdida em algum canto da minha alma.
Conversamos a tarde toda e eu odiei quando olhei o relógio e vi que já era hora de me arrumar e ir pro curso.
Mas eu fui pro curso, e quando cheguei eles me esperavam, a vó fez sopa e estava muito boa. Logo eles foram dormir e eu vim aqui, escrever e comer tostines.
Eu estou muito melhor. Pensativa, claro. Mas melhor.
Voltei a usar a aliança que ele me deu. A propósito, ela cai perfeitamente no meu dedo pequeno.
...bom, comprei leite condensado, sucrilhos e morango. Amanhã eu levanto cedo pra ir pra academia.
Preciso tomar um banho e voltar a usar meus cabelos cacheados.
Tentarei encontrar o Leo amanhã, no shopping.
E, Julyana, eu te amo.
Denise, pra sempre ;)
Chris, meu amiguiiinho *-*
Anne, tinhamo!
Google Chrome, foi bom te conhecer.
Jota, saudades.
E, pra quem eu esqueci, beeeijoca estalada na bochecha.
'...me promete que vai ficar sempre aqui, do meu lado, segurando a minha mão enquanto eu olho o horizonte esperando a nossa estrela brilhar...' ♥
