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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Eu não acredito que seja por acaso. Uma mudança acontece porque precisa acontecer, e por mais que não pareça que existe algo bom por detrás daquilo, sempre tem. Se você não tivesse aceitado essa proposta de emprego, não teria conhecido o amor da sua vida. Se lembra que você reclamava, xingava, até chorava de raiva só de pensar em ter que mudar de bairro pra poder ficar mais perto do trabalho?
E quem diria!
Foi uma das melhores coisas que aconteceu pra você.
E aquelas mudanças que não queremos, somos obrigados. O pai te enfia no carro, te leva pra um lugar distante e mostra a casa que vão morar. O Jardim parece uma selva, você tem medo que a qualquer momento saia uma onça dali. Seu quarto tem a janela grande demais, virada pros fundos da casa e seu guarda-roupa não parece guarda-roupa. A cozinha é pequena demais e a sala tem muitas janelas.
O Muro da casa é feio e a campanhia parece de casa mal assombrada.
Mas, dali uns meses, lá está você feliz, correndo pelo jardim com seu telescópio numa madrugada quente de verão, sonhando acordada deitada na cama olhando a imensa janela do seu quarto, cozinhando na apertada cozinha e esperando seu amor nas várias janelas da sala.
Mudanças nem sempre são bem aceitas. E eu me arrisco a dizer que não são bem aceitas.
A gente se adapta a tudo o que temos, nos acostumamos e quando aquilo nos é tirado, mesmo que trocado por algo melhor, é difícil se adaptar.
É difícil se adaptar ao cheiro diferente, ao caminho oposto, as diferentes pessoas.
Mas aí, quando tudo se acostuma, você não quer mais sair dali.
Eu me intrigo com meus avós paternos. A fazenda é bonita, mas não é um lugar bom de se viver. Pra chegar ao hospital leva quase duas horas. Até lá a pessoa já morreu e já está se decompondo.
Tudo é plantado e levado diretamente a mesa, nem sempre tem energia e o banho é gelado. Algumas casas vizinhas são feitas de barro e a do meu avô é de alvenaria porque os filhos não aceitaram deixar o pai envelhecer numa casa de barro.
E quantas propostas ele e a vó já tiveram de vir morar na cidade? Várias!
Florianópolis, por exemplo.
Uma cidade linda. Cheia de encantos, natureza. Tudo o que eles precisam para aproveitar o resto da velhice que lhes sobra.
Mas eles não trocam o cantinho deles, por nada!
Ta aí!
Se acostumaram. A situação pode parecer insuportável pra qualquer pessoa, mas eles estão bem ali e não aceitarão quaisquer mudanças.
Depois que nem todo mundo está preparado para viver a saudade.
Mudar de bairro, de emprego, de escola parece ser fácil.
Mas pensa em mudar de Estado, quem sabe, de País. Deixar as pessoas que você ama, que te acompanharam durantes os momentos mais importantes da sua vida, deixar a sua família, as suas lojas preferidas e ir se adaptar a um lugar que você nem conhece, que as pessoas são totalmente estranhas.
Não é fácil fazer amigos. Amigos, digo, amigos de verdade. Que estão aí pra qualquer hora. Não é fácil amar alguém, ter alguém disposto a viver do seu lado.
Não é fácil.
E quando isso tudo ou sequer uma coisinha dessas é tirada de alguém, a mudança é odiada e a saudade se instala de uma forma insuportável. Não existe explicação pra dor que é sentir a saudade de casa, do amor, dos amigos, do cachorro.
Mudanças... Mudanças que vem pro bem, sempre vem porque a vida não é feita de dor e onde quer que estejamos, sempre vai haver algo bom pra nos fazer sorrir, nos fazer cintilar os olhos de alegria e esquecer um pouco da dor da saudade que a mudança deixou instalada aqui no peito.
Todo mundo carrega as marcas de várias mudanças voluntárias e involuntárias que aconteceram no decorrer de toda a sua vida, todas elas levam a saudade de bons momentos que tiveram, das pessoas que conheceram, dos amigos que confiava, dos amores que deixou.
Ninguém ama uma vez na vida. A gente sempre tá amando, sempre tá odiando, sempre tá mudando.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Existe uma lenda acerca de um pássaro que só canta uma vez na vida, com mais suavidade que qualquer outra criatura sobre a Terra. A partir do momento em que deixa o ninho, começa a procurar um espinheiro-alvar, e só descansa quando o encontra. Depois, cantando entre os galhos selvagens, empala-se no acúleo mais agudo e mais comprido. E, morrendo, sublima a própria agonia e despede um canto mais belo que o da cotovia e o do rouxinol. Um canto superlativo, cujo preço é a existência. Mas o mundo inteiro pára para ouvi-lo, e Deus sorri no céu. Pois o melhor só se adquire à custa de um grande sofrimento... Pelo menos é o que diz a lenda.

(...)

O pássaro com o espinho cravado no peito segue uma lei imutável, impelido por ela, não sabe o que é empalar-se, e morre cantando. No instante em que o espinho penetra não há consciência do morrer futuro; limita-se a cantar e canta até que não lhe sobra vida para emitir uma única nota. Mas nós, quando enfiamos os espinhos no peito, nós sabemos. Compreendemos. E mesmo assim o fazemos. Mesmo assim o fazemos.

(...) Eu sei, eu sei... Cada um de nós tem dentro de si alguma coisa que não pode ser negada, ainda que nos faça gritar, gritar até o fim. Somos o que somos e pronto. Como a velha lenda do celta do pássaro com o espinho no peito que canta até morrer. Porque precisa fazê-lo, porque é levado a isso. Podemos saber que vamos errar antes até de cometer o erro, mas o conhecimento de nós mesmo não afeta nem muda o resultado. Cada qual entoa o seu cantozinho, convencido de que é o canto mais maravilhoso que o mundo já ouviu. Você não vê? Criamos nossos espinhos e nunca nos detemos para avaliar o custo. A única coisa que podemos fazer é sofrer a dor e dizer intimamente que valeu a pena. (...)


(Pássaros Feridos – Collen McCullough)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

'Espera amor que eu tô chegando...

Depois do inverno é a vida em cores.

'Espera amor nossa temporada das flores. '



domingo, 16 de agosto de 2009

Ressaca.

Meu mundo se resume a ressaca. Ressaca de uma mistura contínua de gênios e personalidades que eu nem imaginei que pudesse conhecer. Eu também não sabia que, além de misturar bebidas, misturar pessoas e situações também dá ressaca; e meu mundo se resume a isso. A uma ressaca constante de tudo isso que aparenta ser a ilusão do que foi vivido, quando na verdade, nada se viveu e se tem toda uma vida a descobrir, ainda. Essa ressaca de palavras repetidas, de canções mal interpretadas, de paixões que eu já nem lembro, de perguntas sem respostas e de respostas soltas ao vento, de noites mal dormidas, ressaca de acordar arrependida. Ressaca do medo, da incerteza e do espinho que se aloja na garganta todas as vezes que evito o riso tentando ser politicamente correta. Ressaca dessa faixa amarela que sempre está entre eu e alguém que eu não conheço e não poderei conhecer por ela estar exatamente ali, no meio do caminho, dando alerta para a passagem proibida, me negando a minha própria descoberta, o meu passado que eu nem sei se lembro mais. Ressaca dessa minha impulsão absurda que me faz cometer as maiores loucuras e depois tomar um banho quente rindo de mim mesma por ser tão boba e tão serena. Ressaca dessa saudade que teima em se alojar aqui e permanecer o tempo que puder por saber que é mais forte por trazer lembranças de momentos que me fazem tanta faltam. Ressaca de me olhar no espelho e ver essa menina fujona, medrosa e cheia de alguma coisa que eu não sei o nome direito, mas que a faz anular dores profundas e viver momentos imbecis os quais a faz feliz como nenhum outro. Ressaca dessa menina estranha que aparece todo dia no espelho tentando dar um jeito no cabelo, escovando os dentes três vezes e reclamando de não ter roupa. Ressaca desse silêncio que fala alto, dessa mensagem que chega mesmo que o celular não toque, a caixa do correio esteja vazia. Ressaca dessa ponta de iceberg que só deixa amostra parte do que sou.


;* Leonardo Fagundes
;* Denise Dantas
;* Mariana Albuquerque
;* Zé
;* Rafael
;* Maitê (paciêêência)
;* Fernanda

‘...minha vida continuou e DE REPENTE me dei conta de que poderia viver sem você...’

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Audição é um sentido de merda.

Eu não acreditei quando, em pleno horário de pico – porque se fosse umas onze horas da noite eu entenderia; esse é o horário que os dementes costumam fazer algazarra pela cidade enquanto os normais precisam dormir para trabalhar cedo no dia seguinte – no cruzamento perto do Banco, surge um carro preto, cheio desses acessórios moderninhos. O motorista com um moicano vermelho e tatuagens pelo braço, devia estar a uns 60km/h. Qualquer um que me conheça deve estar impressionado pelo fato de eu ter notado essa criatura estranha vagando pelo centro enquanto eu corria de um lado para o outro com papéis debaixo do braço. O fato é que eu fui estuprada pelo ouvido. Se não fosse pela música de péssima qualidade que aquele imbecil ouvia, eu podia fazer uso das minhas pálpebras e ignorar sua existência. Mas meus ouvidos não possuem pálpebras. Eu, e mais um bocado de gente, fomos obrigados a ouvir aquela poluição enquanto a belezinha desfilava na avenida.

Eu fiquei muito revoltada. Ninguém mais respeita o gosto de ninguém. No sábado, voltando pra casa de ônibus, tinha um troglodita com o celular no último volume num rap impossível de ser interpretado. Depois de uns cinco quilômetros, entrou uma moça com um estilo um tanto descolado, sentou no banco atrás de mim, pegou o bendito celular e começou a tocar um axé de dar nos nervos. Foi aquela disputa. Rap x Axé. Um falava dos policiais que invadiam o morro e todos queriam paz para viver tranqüilo com suas “negas”. O outro falava que tinha acordado feliz porque aquela noite iria encontrar o caboclo de sua preferência. Definitivamente, assim como o vídeo cassete desapareceu ironicamente, daqui uns dias, ninguém saberá mais pra que servem fones de ouvido.

Ninguém respeita mais ninguém. Eu nunca obriguei ninguém ouvir minhas relíquias. Custa serem recíprocos? Já percebeu que hoje até termos silêncio precisamos pagar? E PAGAR CARO. Não é barato colocar vidros blindados nem aquelas espumas acústico. As caixas de ovos nem sempre resolvem.

A audição é um sentido de merda. Se eu não quero ver algo, apelo para minhas pálpebras. Mas, e os ouvidos? Eu sou obrigada a ouvir as tranqueiras que muitos ouvem. Nós, relíquias de bons seres humanos, somos estuprados a toda hora por esse tipo de som e nem podemos cobrar indenização. Porque tudo está moderno, porque tudo é evoluído, tudo é muito rápido. Porque todo mundo tem que andar nessa velocidade determinada por alguém que nem existe? Cada um tem a sua velocidade...

Porque sempre aquelas coisas clichês? Porque sempre o Google? Mais umas duas horas você consegue informações num bom livro e não corre o risco de levar um trabalho igual ao do seu colega de classe. Porque sempre correr pelo caminho mais curto, pensar numa maneira mais rápida.

Tá todo mundo perdendo o gosto pelo ato de APRECIAR. E tá todo mundo apelando para a modernidade. Como tudo era diferente aos meus sete anos. O computador não era tão importante – a não ser nas grandes empresas. O kinder Ovo era a Sete Belo de hoje. Não existia a Trakinas – que anda matando um monte de crianças aí. E McDonald’s era recomendável em festas de aniversário. As crianças brincavam mais na rua, não existia lan houses, e tinha muitos comerciais de brinquedos na televisão. Por falar em televisão, a televisão era mais interessante. Hoje, são raros os canais – e canais fechados – que possuem bons programas com cultura e música de boa qualidade. Hoje em dia, a televisão é como um abajur (já dizia Marcelo Tas). Como uma salvação, existe o CQC para a televisão brasileira não falir humoristicamente. Porque Casseta & Planeta, Zorra Total e todos os outros são de dar náuseas.

Resumindo... Estamos sendo agredidos a cada hora e não percebemos. E nada podemos fazer. Apensas suportar tudo com muita paciência e permanecer calado, ou perder algumas boas horas de sono e desabafar tudo no blog, como eu estou fazendo; porque encontrar alguém que ouça tudo isso e não te interne num hospício é raro, muito raro.

Porque de algum modo, uma partezinha de mim sempre esperou que talvez, de vez em quando, ou até de vez em nunca, você estivesse andando pela rua e lembrasse da minha existência sem motivos, ou simplesmente porque queria me contar uma piada. E, eu penso em você assim, do nada, enquanto estou procurando um endereço no mapa, ou as vezes esperando a torrada ficar pronta, e inevitavelmente, surge um sorriso no meu rosto...