Às vezes a gente precisa de um tempo. Um tempo sem escrever, sem sair, sem olhar a lua, sem conversar com muita gente. Às vezes a gente precisa de um tempo pra gente, de um tempo pra se cuidar, pra se conhecer, se olhar no espelho e não ter medo nem vergonha de ser aquilo que é refletido.
Eu ando sentindo falta dos meus avós. Sempre que eu penso na última vez que eu os vi, não os aproveitei como devia, apesar de ter ficado todo o tempo com eles. Saudade do cheiro, das brincadeiras, do colo, da risada boba deles das minhas palhaçadas sem graça.
Saudade da companhia deles.
Da companhia deles e de tudo aquilo que ainda prossegue em mim. Dos amores, das amizades, das flores, dos poemas, dos olhares compreensivos, das longas conversas, dos conselhos.
'Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?'
E, hoje, tomando muito suco de melancia...
Eu vou vivendo dos meus sonhos e lembrando dos momentos inesquecíveis que tive ao lado de cada um que amei e que passou tão rápido por mim.
Hoje, as lembranças me impulsionam a seguir meus sonhos, a ser persistente, teimosa, a conquistar aquilo que eu acredito e a acreditar naquilo que eu sonho.
Mas são essas mesmas lembranças que me fazem chorar agarrada ao meu travesseiro "meia-lua", que me fazem ter medo do escuro e, muitas vezes, procurar abrigo num aperto de mão, num olhar.
Todas as vezes que trilho um caminho diferente, que não sei onde vai dar, as lembranças voltam e, junto, trazem o medo. Aí, eu procuro descobrir pra onde aquele caminho vai me levar e, eu defino uma trajetória e presumo tudo o que vai acontecer e como eu devo agir.
Mas eu nunca aprendo!
Sempre que faço isso, as coisas saem do meu controle e, eu ajo impulsivamente por não saber como agir. Consequentemente, alguns sonhos ficam machucados, outros, traumatizados, e eles se escondem na gaveta do criado mudo perto da janela, no canto da minha alma. E, eu, sem notar as suas faltas, não me importo. Às vezes, algumas pessoas se importam e perguntam por eles, eu finjo não saber, mas, no fundo, eu posso sentir o cheiro deles apodrecendo trancados ali, naquela gaveta, infectando toda a minha alma.
Sonhos são como borboletas, eles devem ser livres para pousar em nosso ombro no tempo certo.
Eu andei dando um "jeito" na minha alma.
Desde a última vez que aquele vendaval destruiu quase tudo, eu não tinha voltado lá. As janelas estavam abertas, alguns vidros quebrados e estilhaçados no chão.
"...certas bençãos de Deus entram estilhaçando todas as vidraças."
O vaso que ficava no canto da minha alma estava quebrado, alguns sonhos já podres, as últimas tulipas que eu havia colocado para enfeitar a minha alma estavam no chão. Era hora de arrumar tudo aquilo!Já havia se passado tempo suficiente para que eu criasse força e coragem para ver o estrago que aquele vendaval havia feito. Cada caco de vidro, cada sonho, cada restinho de tulipa, me trazia lembranças de bons momentos que eu não queria ter vivido. Os bons momentos são como anestesia, que impedem que a dor seja sentida e que nos faça ter ilusão de que não vai doer.
Os bons momentos impedem que você pense e perceba que vai sofrer, que vai ser difícil esquecer. Varri o chão da minha alma, joguei os cacos, os sonhos apodrecidos e os restos de tulipas. Troquei as vidraças, colhi outras flores e coloquei outro vaso no canto da minha alma. Quem vê a minha alma agora, não imagina o quanto aquele vendaval feriu e bagunçou tudo o que eu havia arrumado com tanto amor.
As lembranças não me fazem esquecer. E isso é bom! Só assim eu posso dar valor a minha alma, em como é bom vê-la arrumada, com cheiro de flores e com a leve brisa entrando pelas vidraças. E, o melhor, eu não espero mais que me tragam flores, eu mesma as colho e enfeito a minha alma.
Porque, para a gente se sentir bem, só depende da gente.
