terça-feira, 11 de agosto de 2009

Audição é um sentido de merda.

Eu não acreditei quando, em pleno horário de pico – porque se fosse umas onze horas da noite eu entenderia; esse é o horário que os dementes costumam fazer algazarra pela cidade enquanto os normais precisam dormir para trabalhar cedo no dia seguinte – no cruzamento perto do Banco, surge um carro preto, cheio desses acessórios moderninhos. O motorista com um moicano vermelho e tatuagens pelo braço, devia estar a uns 60km/h. Qualquer um que me conheça deve estar impressionado pelo fato de eu ter notado essa criatura estranha vagando pelo centro enquanto eu corria de um lado para o outro com papéis debaixo do braço. O fato é que eu fui estuprada pelo ouvido. Se não fosse pela música de péssima qualidade que aquele imbecil ouvia, eu podia fazer uso das minhas pálpebras e ignorar sua existência. Mas meus ouvidos não possuem pálpebras. Eu, e mais um bocado de gente, fomos obrigados a ouvir aquela poluição enquanto a belezinha desfilava na avenida.

Eu fiquei muito revoltada. Ninguém mais respeita o gosto de ninguém. No sábado, voltando pra casa de ônibus, tinha um troglodita com o celular no último volume num rap impossível de ser interpretado. Depois de uns cinco quilômetros, entrou uma moça com um estilo um tanto descolado, sentou no banco atrás de mim, pegou o bendito celular e começou a tocar um axé de dar nos nervos. Foi aquela disputa. Rap x Axé. Um falava dos policiais que invadiam o morro e todos queriam paz para viver tranqüilo com suas “negas”. O outro falava que tinha acordado feliz porque aquela noite iria encontrar o caboclo de sua preferência. Definitivamente, assim como o vídeo cassete desapareceu ironicamente, daqui uns dias, ninguém saberá mais pra que servem fones de ouvido.

Ninguém respeita mais ninguém. Eu nunca obriguei ninguém ouvir minhas relíquias. Custa serem recíprocos? Já percebeu que hoje até termos silêncio precisamos pagar? E PAGAR CARO. Não é barato colocar vidros blindados nem aquelas espumas acústico. As caixas de ovos nem sempre resolvem.

A audição é um sentido de merda. Se eu não quero ver algo, apelo para minhas pálpebras. Mas, e os ouvidos? Eu sou obrigada a ouvir as tranqueiras que muitos ouvem. Nós, relíquias de bons seres humanos, somos estuprados a toda hora por esse tipo de som e nem podemos cobrar indenização. Porque tudo está moderno, porque tudo é evoluído, tudo é muito rápido. Porque todo mundo tem que andar nessa velocidade determinada por alguém que nem existe? Cada um tem a sua velocidade...

Porque sempre aquelas coisas clichês? Porque sempre o Google? Mais umas duas horas você consegue informações num bom livro e não corre o risco de levar um trabalho igual ao do seu colega de classe. Porque sempre correr pelo caminho mais curto, pensar numa maneira mais rápida.

Tá todo mundo perdendo o gosto pelo ato de APRECIAR. E tá todo mundo apelando para a modernidade. Como tudo era diferente aos meus sete anos. O computador não era tão importante – a não ser nas grandes empresas. O kinder Ovo era a Sete Belo de hoje. Não existia a Trakinas – que anda matando um monte de crianças aí. E McDonald’s era recomendável em festas de aniversário. As crianças brincavam mais na rua, não existia lan houses, e tinha muitos comerciais de brinquedos na televisão. Por falar em televisão, a televisão era mais interessante. Hoje, são raros os canais – e canais fechados – que possuem bons programas com cultura e música de boa qualidade. Hoje em dia, a televisão é como um abajur (já dizia Marcelo Tas). Como uma salvação, existe o CQC para a televisão brasileira não falir humoristicamente. Porque Casseta & Planeta, Zorra Total e todos os outros são de dar náuseas.

Resumindo... Estamos sendo agredidos a cada hora e não percebemos. E nada podemos fazer. Apensas suportar tudo com muita paciência e permanecer calado, ou perder algumas boas horas de sono e desabafar tudo no blog, como eu estou fazendo; porque encontrar alguém que ouça tudo isso e não te interne num hospício é raro, muito raro.